Quinta-Feira, 25 de Abril de 2019

Estudo mostra que onças-pintadas vivem ameaçadas no país causando desequilíbrio ambiental




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“Onça, elas também sabem muita coisa. Tem coisas que ela vê, a gente não, não pode. Ih! Tanta coisa...”, escreveu Guimarães Rosa em “Meu tio o Iauaretê”, um de seus contos mais famosos. As palavras de Rosa, o grande cronista dos sertões do Brasil, são de 1969. Passados quase 50 anos, ainda tem muita coisa que só a onça parece saber, a mais importante delas, manter a natureza em equilíbrio. O que já se tem certeza, porém, é que viva ela vale mais do que morta.

Transformada oficialmente este ano, por portaria do governo federal, em símbolo da biodiversidade do Brasil, a onça-pintada é nosso animal mais emblemático, com habitat da Amazônia às florestas do Sul, passando pelo Pantanal de Mato Grosso. Só não ocorre nos Pampas, onde foi extinta. Está à beira de desaparecer na Mata Atlântica e na Caatinga. É vítima da perda de habitat e da caça, tanto dela própria quanto de suas presas, como porcos do mato, pacas e veados.

Se tornou um símbolo porque ocupa o topo da cadeia da alimentar dos biomas onde ocorre, representa força e resistência. Onde tem onça, tem natureza saudável, resume Ronaldo Morato, um dos maiores especialistas do país na espécie e coordenador-geral do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos (Cenap/ICMBio). Sem a pintada, as florestas que produzem água e regulam o clima, não funcionam como deveriam. É ela quem mantém em ordem a população de bichos que, por sua vez, são essenciais para o crescimento das plantas.

Como disse Rosa, onça “revira pra todo lado, mecê pensa que ela é muitas, tá virando outras.” E as onças no Brasil são poucas em número e muitas em diversidade. Há as onças anfíbias da Amazônia. Na várzea do Solimões, elas não migram nas cheias. Ficam empoleiradas nos galhos e caçam preguiças e macacos, conta Carlos Durigan, diretor da WCS-Brasil, que lidera uma aliança para a preservação da espécie.

á as sertanejas são menores e encontraram um último refúgio nos boqueirões da Caatinga. A rara lombo-preto é a senhora das noites das dunas e chapadões do Jalapão. Há as onças musculosas caçadoras de jacarés do Pantanal. E as onças que resistem confinadas nos maiores fragmentos que restaram da Mata Atlântica.

Tornada símbolo, a onça ganhou este ano um dia nacional, 29 de novembro, lançado em Foz do Iguaçu. A cidade é o principal centro de conservação da espécie na Mata Atlântica e onde está a maior população desse felino no bioma — 22 animais, segundo um censo de 2016, pouco mais uma esperança aos 11 que havia em 2009.

Em Foz produtos com a pantera representam mais da metade das vendas das lojas do Parque Nacional do Iguaçu. Uma cerveja artesanal chamada Jaguaretê (nome tupi da pintada) faz sucesso. E o secretário de Turismo, Indústria e Comércio de Foz, Gilmar Piolla, diz que a onça é um ativo fundamental do município, terceiro principal destino turístico dos estrangeiros que visitam o país. “Aqui todo mundo é amigo da onça, tem paixão por ela. Ela ajuda a mover a nossa economia”, afirma Piolla.

PANTANAL - Mas é do Pantanal onde está a segunda maior população de onças brasileiras fora da Amazônia — cerca de mil animais — que vem o exemplo mais contundente do valor literal desses felinos. Uma pesquisa liderada por Fernando Tortato, da ONG Panthera, mostrou que a venda de pacotes turísticos para a observação de onças alcançou R$ 22 milhões em 2017. Os prejuízos causados pelos felinos com a predação de gado ficaram em R$ 400 mil.

“Já há pousadas que cobram US$ 900 de diária pelo turismo de observação de onças e a maioria dos turistas se diz disposta a pagar um pouco mais para ajudar a compensar criadores que tenham sofrido perdas. É possível criar mecanismos de compensação para os criadores, estabelecer uma política para isso e acabar com caça de retaliação. Já a caça esportiva, uma das maiores exibições de covardia e brutalidade que o ser humano é capaz de dar, tem que ser combatida com todo o rigor da lei”, frisa Tortato.

No Brasil, de cada cem cabeças de gado mortas, apenas duas são predadas por onças, sendo o atolamento na lama e doenças infecciosas as principais causas de mortalidade do rebanho, diz Yara Barros, coordenadora-executiva do projeto Onças do Iguaçu. A onça é vítima, sobretudo, da falta de conhecimento, destaca Barros. O trabalho do projeto é justamente promover a coexistência entre onças e seres humanos. Tem tido sucesso. Conseguiu, por exemplo, que um produtor rural que perdeu uma vaca se tornasse defensor das onças.

O grupo ajudou Marcus Oliveira, do distrito rural de São Miguel, na borda do parque do Iguaçu, a colocar cerca elétrica, obter a melhoria das estradas e aprender a fazer queijo. Hoje ele vende um procurado Queijo da Onça e se tornou voluntário do grupo de conservação. A onça acabou sendo um ótimo negócio, salienta Barros. Segundo ela, os casos de ataques a seres humanos são extremamente raros e, quase sempre, causados por desequilíbrio ambiental.

Este ano houve dois ataques fatais de onças a pessoas no Xingu após anos sem casos. Uma das possibilidades, diz Durigan, é que o desmatamento no entorno do parque tenha levado as onças para perto das aldeias. Durigan apresentou na conferência mundial de biodiversidade (COP 14), mês passado no Egito, uma proposta de preservação da espécie nos 18 países das Américas onde a pintada existe.

São diretrizes de ações conjuntas feitas pelos governos. Brasil, Argentina e Paraguai, por exemplo, já colaboram para proteger as onças da região do Iguaçu e têm alcançado bons resultados.

Nas florestas do Iguaçu, a caça é a grande ameaça. Ela é principalmente de retaliação a ataques contra animais de criação ou de abate a presas naturais da onça, como os queixadas, explica Ivan Baptiston, chefe do parque nacional. Segundo ele, a fiscalização tanto no lado brasileiro quanto no argentino tem diminuído a pressão e ajudado a aumentar a população de felinos.

Temida por séculos, ela foi considerada até enviada de Deus para punir os desatinos do homem “(...) que seria se muitas se unissem a vingar as injúrias que tinham cometido os homens contra seu Criador”, escreveu em 1752 o jesuíta Manoel da Fonseca em a “Vida do venerável padre Belchior de Pontes”. Porém, foi a onça que terminou vítima de alguns dos maiores pecados da Humanidade, como a luxúria, a covardia e a perversidade que movem a caça esportiva, frisa Baptiston.

Barros aposta no conhecimento sobre o felino para promover a conservação por meio da coexistência. “Queremos substituir o medo pelo encantamento. Coexistir é possível. Onça só quer ser onça”, diz ela, que vai de feira rural a batizado de boneca para dar palestras sobre o felino na zona rural do Paraná. 


Autor: Redação AMZ Noticias


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