Sábado, 23 de Fevereiro de 2019

Ataques de escorpiões em cidades brasileiras aumentam 80% nos últimos cinco anos




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Certas espécies de escorpião se reproduzem sem a presença de um macho, isto é, via partenogênese. Basta um único indivíduo para que em poucos meses a população chegue a dezenas ou centenas de indivíduos.

Com os sucessivos recordes de temperatura alta (o metabolismo dos escorpiões aumenta no calor), o aumento de construções irregulares e de entulho (que servem de abrigo para os bichos) e a quantidade abundante de alimentos (eles adoram comer baratas, por exemplo), seria natural que houvesse mais desses bichos por aí.

Resultado: nos últimos cinco anos, o número de envenenamentos por escorpião no Brasil cresceu de 78 mil para 141 mil, um aumento de 80%. No país há mais de 170 espécies de escorpião, mas só algumas, como o Tytius serrulatus, o escorpião-amarelo, têm relevância do ponto de vista da saúde pública.

Em 2017, foram contabilizadas 143 mortes causadas por escorpiões, mais da metade do total dos ataques fatais de animais peçonhentos (278). Ou seja, para a saúde humana, faz mais sentido se preocupar com esses aracnídeos do que com serpentes, águas-vivas, lagartas ou abelhas.

Quatro em cada 10 mil pessoas picadas morrem. "Se a gente se guiar apenas pela estatística, o dado não parece ser tão relevante, mas o escorpianismo é um agravo importante porque a maioria das mortes acontece em crianças e muito rapidamente, em algumas horas", afirma a médica Fan Hui Wen,gestora de projetos do Instituto Butantan.

A maior parte dos casos é resolvida apenas com a higienização do local e, eventualmente, com o uso de anestésicos e analgésicos em um serviço de saúde. Eventualmente, em casos mais graves, pode ser crucial o uso de soro antiescorpiônico. Esse soro é fabricado da mesma forma que aquele que é utilizado contra o veneno de serpentes, a partir da imunização de cavalos e posterior purificação de seu plasma, processo conhecido como aférese.

Diante desse cenário, o Instituto Butantan ofereceu um curso para os profissionais do estado de São Paulo que lidam com os bichos, como técnicos da área de zoonoses ou que atuam na vigilância epidemiológica. A ideia do encontro, acompanhado pela reportagem, era discutir como capturar escorpiões, transportá-los, prevenir os ataques e atender as vítimas.

Hoje a principal medida preventiva é a captura dos bichos, que adoram cemitérios, esgotos e barracos. Uma técnica que trabalha em Jundiaí, no interior de São Paulo, relatou já ter coletado 750 escorpiões em uma só noite, em um cemitério. O trabalho de formiguinha é feito com a ajuda de luz UV, que faz os bichos brilharem no escuro. Idealmente as coletas têm de ser periódicas, a cada poucas semanas.

Para quem achar um escorpião em casa, o ideal é capturá-lo com o auxílio de um pote, cobrindo-o depois com papelão. Para matá-lo, basta imergir em álcool 70%. E cuidado: se achar um, pode haver outros mais. O uso de inseticidas no combate gerou uma acalorada discussão. Enquanto as diretrizes brasileiras desencorajam o uso, há normas internacionais que recomendam os venenos. Segundo relatos dos técnicos, em alguns municípios os prefeitos prometeram em suas campanhas usar veneno, apesar de haver recomendação contrária do Ministério da Saúde.

Ana Bersusa, pesquisadora científica do Instituto de Saúde e representante da Sucen (Superintendência de Controle de Endemias) da secretaria da Saúde do estado de São Paulo, diz que não há estudos no mundo real (ou seja, fora do laboratório) que atestem a eficácia dos venenos, apesar de alguns relatos de sucesso.

Wen disse que há alguns contatos de governos com o instituto, mas que ainda há desafios nessa relação. "Daqui a pouco a gente começa a pegar na mão dos secretários, e quem sabe a gente case com eles para realmente ter ações conjuntas e harmonizadas. Mas esse trabalho ainda não deu resultados. Acho que nosso papel, como trabalhadores da saúde, é o de conscientizar os gestores, e fazer chegar neles a necessidade de mais recursos materiais e humanos."

Há ao menos duas boas razões biológicas para questionar o uso sistemático de venenos. A primeira é que os escorpiões conseguem fechar seus estigmas pulmonares (aberturas que ficam no ventre) e impedir que o conteúdo seja internalizado. Outra é que, com a exposição sucessiva é possível que surjam animais resistentes, mais difíceis de lidar.

Mesmo que a estratégia fosse por esse caminho, é improvável que se consiga eliminar os bichos. "É mais fácil eles acabarem com a gente antes", brinca Denise Candido, pesquisadora do Butantan, que falou sobre a biologia dos escorpiões no curso. Ela cuida de um biotério com 15 mil desses aracnídeos no instituto. 


Autor:Redação AMZ Noticias


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