Quarta-Feira, 20 de Novembro de 2019

Maggi se preocupa com incêndios e diz ainda que Brasil pode sofrer sanções econômicas




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Ex-ministro da Agricultura e ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PP) contou à Jovem Pan News na manhã desta sexta-feira (23) que a maneira como o presidente Jair Bolsonaro (PSL) trata o "estrago" feito na Amazônia pelos focos de incêndio tem tudo para queimar de vez o filme do país no exterior. E os discursos incitatórios, polarizantes, dão sinal verde à devastação na percepção dos cidadãos mais simples.

“Vamos ter que retomar todo um trabalho que foi feito, no qual tínhamos avançado bastante já. Até as ONGs [organizações não governamentais] internacionais e os próprios mercados haviam entendido que se fez um esforço muito grande no Brasil para separar o agronegócio, que é uma produção sustentável, daquilo que é grilagem, mal feito, desmatamento ilegal e que o Brasil vinha combatendo esse tipo de coisa. Mas o discurso que foi feito agora passa a impressão de que houve uma liberalização disso [queimadas e desmatamento]”.

Maggi sabe do que fala, pois além de ser apontado por seus pares empresários e economistas locais como o responsável pela abertura de ao menos uma dezena de novos mercados para o agronegócio durante os dois anos e meio em que esteve à frente do Ministério da Agricultura, ele próprio foi duramente repreendido internacionalmente depois que a bíblia do liberalismo na Grã-Bretanha, a revista The Economist, dedicou-lhe em 2005 uma capa e um irônico prêmio de "Motosserra de Ouro", como um dos maiores desmatadores dos mais de 500.000 km2 da área total de Amazônia viva nos limites de Mato Grosso.

O então governador do Estado e maior produtor de soja do planeta, no entanto, afirmou anos depois que conseguiu comprovar ao mercado internacional, como empreendedor, o trabalho de preservação, conservação, manejo e reflorestamento desenvolvido em suas fazendas, além das muitas visitas internacionais para comprovar essas novas atitudes e posicionamento.

Como chefe do Executivo, Maggi conseguiu fazer com que a então curva ascendente do desmatamento fosse reduzida. Para se ter uma ideia, de acordo com dados divulgados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e a Federação dos Agricultores de Mato Grosso (Famato) à época, entre 2002 e 2003, primeiro ano de seu governo, 11 mil km² do território mato-grossense foram ocupados com pecuária e ou agricultura.

Esse número começou a cair gradualmente a partir de 2004, com ações coordenadas de combate, fiscalização, conscientização e repressão, até chegar, já em 2011, a índices menores que mil quilômetros quadrados ocupados a cada ano. Tendência essa que vinha sendo mantida até 2019, segundo o demonstrado pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto Amazônia (Amazon).

De acordo com boletim divulgado pelo governo estadual no dia 03 de maio, o SAD demonstra que Mato Grosso reduziu em 78% o desmatamento específico em nossa área amazônica durante o mês de março de 2019 em relação ao mesmo período de 2018 e que o monitoramento em tempo real evitara desmatamentos ilegais em pelo menos 8 mil hectares somente no primeiro quadrimestre deste ano.

No acumulado entre agosto de 2018 e março de 2019, em relação ao mesmo intervalo de tempo em 2017/18, a queda teria chegado a 18%. Esses números parecem dar ainda mais razão às preocupações do megaprodutor, dono da trading Amaggi. Na percepção dele, a situação internacional já é crítica com relação à maneira como o país está sendo visto no restante do mundo porque o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro (PSL) frente à situação tem sido inadequada, inclusive na opinião dos gigantes do agronegócio nacional, pois é o modo de vida deles que está sendo diretamente afetado pelo que considerou falta de tato do presidente de turno. “A gente sabe que não mudou nem uma lei no Brasil. Não se facilitou a vida de ninguém, mas talvez os grileiros, os menos avisados, com o próprio discurso [do presidente], acham que pode fazer. Aí a gente viu um aumento do desmatamento dois meses atrás e agora o fogo. O que é bem característico desse tipo de situação, primeiro se derruba e depois toca fogo”, lamentou.

Fato é que somente hoje, o primeiro ministro da Irlanda, Leo Varadkar, ameaçou, depois da França, não assinar o acordo comercial previsto entre Mercosul e União Europeia se o governo federal não der um jeito de frear as queimadas na Amazônia. Maggi estava justamente em visita de negócios à França quando deu a entrevista à Jovem Pan de São Paulo, por telefone.

Houve protestos contra as queimadas e o desmatamento sendo realizados em frente às embaixadas brasileiras em cidades como Paris, Mumbai, Berlim, Dublin. O presidente da França, Emanuel Macron, e a premier da Alemanha, Angela Merkel, manifestaram preocupação formal com os rumos de manejo do bioma.

“Eu não tenho dúvida nenhuma que as empresas, o governo, vão ter que sair de novo mundo afora tentando demonstrar e provando que tudo que está acontecendo é de forma legal e que está sendo combatido com todas as forças que o país tem e que este setor do agro tem também. Dizer que a Amazônia não é importante para o Brasil e para o mundo? Isso tá errado. Ela é importante. Devemos conservá-la e separar exatamente o que é ilegal e o que é legal”.

Questionado pelo jornalista Augusto Nunes se o desmatamento realmente aumentou fora do “previsto normal” e sobre quem seriam os responsáveis pelo desmatamento, citando agricultores e ribeirinhos, Maggi foi taxativo. “Quem desmata está à margem da lei. Não é proibido usar parte de seu território, como todo mundo sabe. Normalmente não são agricultores estabelecidos. Nós não utilizamos fogo na nossa atividade agrícola, aqueles que desmatam, desmatam de forma ilegal, irregular, grileiros, há uma série de pessoas que acabam fazendo isso, e nós temos que combater isso como país. Não podemos aceitar esse tipo de coisa. O governo é quem tem que combater isso, ele não pode cruzar os braços e achar que as pessoas vão fazer tudo certinho o tempo inteiro. Tem que ter fiscalização sim”.

Em outra entrevista, ao jornal Valor Econômico, Blairo havia dito que parte dos protestos exarados por líderes europeus (e norte-americanos, mais recentemente) pode estar relacionada à resistência de alguns países, como a França, ao fechamento do acordo Europa com a América do Sul. Ele explicou a fala afirmando que resistência de alguns países da Europa sempre houve, especialmente da França, mas o que está acontecendo agora na Amazônia fez aumentar visivelmente o tom por parte dos líderes do mundo.

“Com quem eu tenho conversado aqui fora, a preocupação é bastante grande. Todo mundo muito preocupado porque aqui fora não se tem a noção do que acontece, qual o tamanho da Amazônia e o tamanho do estrago. Então a impressão que as pessoas têm é que a Amazônia inteira está sob ameaça, sob fogo e que vai acabar. A gente sabe que não é bem assim, mas o posicionamento do governo, o discurso que foi implementado, acabou criando essa instabilidade, essa preocupação, ela ganhou força e agora temos que tentar demonstrar que a preocupação é válida, mas não é tão grave quanto está se propagando aqui fora neste momento. 


Autor: Rodivaldo ribeiro com FolhaMax


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