Sexta-Feira, 06 de Dezembro de 2019

Pedro Casaldáliga, o líder que foi usado e abandonado pela esquerda brasileira




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O silêncio é total e absoluto. O corpo frágil, vencido pelo passar dos anos e o Mal de Parkinson já não mais reage aos estímulos do cérebro. Aos 91 anos o prelado que inspira a Igreja Católica Progressista luta pela vida preso a uma cama num minúsculo quarto na casa onde mora há décadas. A duras penas faz um vacilante sinal com a mão esquerda numa saudação que se completa plena com o brilho de seu olhar – inalterado por seu quadro de saúde.

Esse cenário é parte do calvário do bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia, na cidade do mesmo nome.  Seu complemento é mais trágico ainda, pois atinge a alma que move o pastor mais conhecido do Brasil no exterior: a ausência da militância do PT, PCdoB e do PSOL; dos grandes líderes nacionais da esquerda, do comando do MST, dos artistas famosos que sempre o citam enquanto referência e da cúpula sindical. TODOS, sem exceção, o abandonaram. Pere Casaldàliga i Pla ou Dom Pedro Casaldáliga ou ainda Pedro, que é como gosta de ser chamado, agoniza na solidão. Um pequeno e barulhento ventilador, no piso, no quarto de Pedro, com seu vaivém desengonçado e incessante, ameniza o calor, que é marca registrada na região.

Estive ao lado de sua cama na sexta-feira, 22 deste novembro. Ao longo de três dias não vi nenhuma movimentação de visitantes. Uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu aposento, testemunha sua vida na casa onde mora em São Félix do Araguaia, sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que fazem a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 é o braço direito de Pedro. Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – é o cão de guarda: filtra a tentativa de aproximação dos jornalistas que não rezam pela cartilha da esquerda e sequer permite ser fotografado.

A solidão de Pedro deixa a esquerda numa dualidade. Durante a prisão do ex-presidente Lula da Silva, militantes ideológicos e partidários montaram acampamento ao lado da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde o mesmo ficou trancafiado.

Em São Félix do Araguaia nenhuma cara aparece ao longo da enfermidade do pastor, que começou em agosto de 2015, quando fraturou o fêmur da perna esquerda e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO). “Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revela padre Ivo.  No único momento de descontração com a reportagem, o sacerdote disse que “idoso não quebra fêmur na queda; ele quebra (o fêmur) e cai”.

Além da solidão ideológica, Pedro também enfrenta o abandono de São Félix do Araguaia, o que não é surpresa para ele. A cidade (e a região também) o culpa pelos baixos indicadores sociais que carregou por muitos anos, observando que investidores não se arriscavam por lá, temendo a insegurança jurídica em razão das ondas de invasões de terra que levavam as digitais do dirigente da Prelazia.

ALIMENTAÇÃO – Dona Diolice cuida de tudo. Pedro faz um lanche matinal, almoça, repete o lanche à tarde e se alimenta à noite. Mas seu cardápio é exclusivamente com comida pastosa à base de arroz, legumes, verduras e algumas frutas. A medicação fica a cargo dos enfermeiros, mas com supervisão do clínico geral Márcio Duarte.

APOSENTADORIA – Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, Pedro chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pela papa Paulo VI e assumiu a Prelazia e a Igreja Nossa Senhora da Assunção, em São Félix do Araguaia. Alcançado pela expulsória aos 70 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner, este último, sobrinho do mundialmente conhecido Cardeal Paulo Evaristo Arns, e que depois de apaziguar a Prelazia se tornou Secretário Geral da CNBB e atualmente é arcebispo de Manaus

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é hoje quem responde pela Prelazia, um território composto por 15 municípios: Santa Cruz do Xingu, São José do Xingu, Vila Rica, Santa Terezinha, Luciara, Novo Santo Antônio, Bom Jesus do Araguaia, Confresa, Porto Alegre do Norte, Canabrava do Norte, Serra Nova Dourada, Alto Boa Vista, Ribeirão Cascalheira, Querência e São Félix do Araguaia.

PEDRO – Escritor, pensador e contestador. Assim é Pedro, o pastor católico que fazia do apoio aos movimentos sem-terra e indigenista o alicerce de sua evangelização. Bispo em atividade, sorria para a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa. Presenciou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira. Dois de seus posicionamentos se chocam com a Santa Sé: defende a ordenação de mulheres para o sacerdócio e contesta o celibato sacerdotal.

Mesmo de esquerda, Pedro certa vez disse que “o governo de Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres “. Nesse quesito padre Ivo discorda. Segundo ele, nos governos de Lula e Dilma, o prelado tinha mais apoio. Reticente quanto ao presidente Jair Bolsonaro, o sacerdote avalia que ele seja ruim para a Prelazia. Na cidade se comenta que o chororô se deve ao fechamento da torneira que irrigava os cofres de organizações não governamentais ligadas a Pedro, e que se dizem defensoras dos índios no Araguaia e Xingu.

A comunidade acadêmica o reverencia. É Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.

REENCONTRO – Esse foi o mais recente reencontro nosso. Estivemos juntos em algumas oportunidades. A primeira vez que nos vimos foi em 1983 na cidade de Rondonópolis. Pedro estava acompanhado pelo secretário municipal Luiz Alberto Esteves Scaloppe, agora procurador da Justiça.

O prelado iria para Fátima de São Lourenço, município de Juscimeira, participar de um evento de freiras. Atendendo Scaloppe o entrevistei ao vivo na Rádio Juventude AM. Vigiado pelo regime militar, o prelado enfrentava barreiras para ter acesso aos veículos de Comunicação. Aquela foi a primeira entrevista por ele concedida ao vivo. A recompensa, em agradecimento, foi um anel de Tucum, preto, que usei até que se rompesse.

Nesse reencontro, em São Félix do Araguaia, deparei-me com um homem de idade avançada, abatido, enfermo e abandonado por seus companheiros de causa ideológica. Peço a Deus que estenda seus dias e que restabeleça sua saúde.  A situação de Pedro e a movimentação em memória da vereadora Marielle Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, mostram duas facetas da esquerda. Os que clamam pela política assassinada no Rio de Janeiro adotam o bordão PRESENTE! nos atos públicos sobre ela. A presença é uma forma de demonstrar unidade ideológica. 


Autor: Eduardo Gomes com A Boa Midia


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