Quarta-Feira, 21 de Abril de 2021

Depois de quase 50 anos, Dom Pedro Casaldáliga deixa São Félix do Araguaia




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Fim de um ciclo. Depois de 49 anos, o bispo católico Dom Pedro Casaldáliga definitivamente deixou São Félix do Araguaia, onde é bispo prelado emérito. E não o fez por vontade própria, pois se encontra numa fase vegetativa da vida, mas por decisão do superior de sua congregação claretiana, padre Mathew Vattamatta, que o quer na Clínica Geriátrica Domus Claret, em Batatais, no interior paulista.

Para ser levado àquela casa de acolhimento, ele terá que receber alta hospitalar da Santa Casa de Batatais, onde tenta superar um derrame pulmonar e pneumonia agravados pelo Mal de Parkinson. Enquanto manteve a lucidez o bispo emérito de São Félix do Araguaia – que dispensa tratamento cerimonioso e gosta de ser chamado de Pedro – insistia em permanecer naquela cidade.

Porém, sua congregação entendeu que era preciso ampará-lo levando-o para um centro que ofereça melhor qualidade de vida a idosos incapacitados física e mentalmente. Nada melhor que Domus Claret, uma casa da congregação dirigida pelo padre Vattamatta e que acolhe, sobretudo, sacerdotes.

Por ordem do padre Vattamatta, na ultima terça-feira, 4, Pedro foi removido do Hospital Municipal Prefeito João Abreu Luz, em São Félix do Araguaia, numa UTI aérea, para Ribeirão Preto, e de lá, por ambulância, num trajeto de 45 quilômetros, para Batatais.

O boletim médico de hoje, 6 de agosto, divulgado pelo diretor técnico da Santa Casa, Antônio Barbosa, informa que o paciente se encontra numa UTI, que o mesmo enfrenta pneumonia associada a um derrame pulmonar, seu estado de saúde é estável, se alimenta por sonda, recebe tratamento à base de antibióticos e que testou negativo para o novo coronavírus.

Em São Félix do Araguaia uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu antigo aposento, testemunhava sua vida na casa onde morou sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que faziam a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 foi seu braço direito. Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – foi o cão de guarda do prelado.

Pedro enfrenta o Mal de Parkinson há 20 anos, é hipertenso e sofre de labirintite. Em 30 de julho de 2015 fraturou o fêmur da perna esquerda num acidente doméstico e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO).

 “Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revela padre Ivo acrescentando que a fratura foi decorrente de uma queda provocada pela debilidade causada pelo Mal de Parkinson. Desde então, a saúde foi definhando. Pedro passou, então, a se manifestar pelo olhar penetrante. Acompanhava tudo ao seu redor, mas imóvel, consciente que o ciclo da vida se fechava.

O HOMEM – Escritor, poeta, pensador, contestador e autor de cartas circulares conceituais. O pastor católico antes de sua enfermidade e mesmo após sua aposentadoria fazia do apoio aos movimentos sem terra e indigenista o alicerce de sua evangelização. Bispo em atividade acompanhou de perto a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa.

A violência tão comum nas áreas de colonização não excluía a região da Prelazia de São Félix.do Araguaia. Pedro presenciou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira, crime sem conotação política.

Em 11 de outubro de 1976, Pedro acompanhado pelo padre João Bosco Penido Burnier, se encontrava na vila que mais tarde seria a cidade de Ribeirão Cascalheira, onde ficou sabendo que policiais estariam torturando uma senhora parente de um homem acusado de crime, para que denunciasse onde o mesmo se encontrava.

Burnier tomou as dores da vítima e foi à delegacia. Diante do que viu, o sacerdote mandou que soltassem a mulher e ameaçou denunciar os torturadores aos seus superiores. A reação de um dos policiais à ameaça de Burnier foi brutal. Disparou ferindo-o mortalmente. O sacerdote foi removido de avião para Goiânia, mas não resistiu e morreu no dia seguinte.

MARÃIWATSÉDÉ – Pedro foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa. A área foi a maior fazenda do mundo e pertencia à multinacional italiana Azienda Generale Italiana Petroli, a Agip, uma multinacional gigante da qual o Vaticano seria um dos grandes  acionistas.

Nos anos 1970, o Vale do Araguaia era palco de invasões de terra, mas a Fazenda do Papa era mantida intocada em respeito a Pedro, padrinho dos sem terra. Uma parte dessa propriedade foi doada ao Brasil quando da Eco-92 no Rio de Janeiro – quando a Agip não tinha mais interesse econômico na região – e transformada na Terra Indígena Marãiwatsédé, dos xavantes, nos municípios de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia.

A parcela doada era habitada mansa e pacificamente por cerca de cinco mil posseiros rurais e urbanos que tinham a benção de Pedro; no local surgiu a vila de Estrela do Araguaia – chamada de Posto da Mata – que em dezembro de 2012 foi demolida quando de sua desintrusão para sua entrega aos xavantes.

Esquerdistas, reverentes, fazem silêncio para ouvi-lo. Direitistas, contrariados, mas sem um murmúrio sequer, o escutam. Sem terra e posseiros de mãos calejadas o aplaudem. Para os indígenas é um irmão. Forte em sua fragilidade física, valente sem armas, corajoso pela força da fé cristã. Um pequeno gigante. Assim é Pedro. Dois de seus posicionamentos se chocam com a Santa Sé: defende a ordenação de mulheres para o sacerdócio e contesta o celibato sacerdotal.

Mesmo de esquerda, Pedro certa vez disse que “o governo de Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres“. Nesse quesito padre Ivo discorda. Segundo ele, nos governos de Lula e Dilma, o prelado tinha mais apoio. Reticente quanto ao presidente Jair Bolsonaro, o sacerdote avalia que ele seja ruim para a Prelazia.

Na enfermidade de Pedro, em São Félix do Araguaia se comentava que o chororô se deve ao fechamento da torneira que irrigava os cofres de organizações não governamentais ligadas a Pedro, e que se dizem defensoras dos índios no Araguaia e Xingu.

A comunidade acadêmica o reverenciou. Foi contemplado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.

Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade. Alcançado pela expulsória aos 75 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner.

Ao tirar a batina Pedro recebeu mais que a aposentadoria canônica: ganhou um bota fora. O núncio apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, sugeriu que ele deixasse São Félix do Araguaia, para não interferir na missão pastoral de seu sucessor. Pedro lhe deu uma banana imaginária e permaneceu naquela cidade que adota como sua terra natal.

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é quem hoje responde pela Prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, na atual região Norte Araguaia de Mato Grosso

Enquanto a saúde e a idade permitiram esse homem que não se curvou ao regime militar de 1964 e que desafiou poderosos reis do gado no Vale do Araguaia pregou o Evangelho, semeou esperança, lutou por liberdade e a harmonia entre os opostos. O tempo se encarregou de minar sua estrutura física.

Doenças e a sequela de uma queda o prenderam a uma cadeira de rodas. Sua fértil memória se volatilizou. O tremor das mãos dificulta até mesmo que tome um copo de água. Não escuta. As palavras teimam em ficar sufocadas na garganta. Seu quadro de saúde se complicou muito nos últimos dias. Seu hoje é a Santa Casa de Batatais. Seu amanhã será a Clínica Geriátrica Domus Claret em Batatais. Para ele, São Félix do Araguaia nunca mais. Para São Félix do Araguaia, Pedro para sempre.


Autor: Eduardo Gomes com A Boa Midia


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