Quarta-Feira, 14 de Abril de 2021

Morte de testemunha chave reacende discussões sobre a questão da chacina de Pau D'Arco




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Quase quatro anos depois da chacina de Pau D'Arco, que deixou dez trabalhadores rurais mortos no sul do Pará, não há data nem previsão para o julgamento dos dezesseis policiais envolvidos no crime e que vão a júri popular.

No final de janeiro deste ano, uma das principais testemunhas do caso foi assassinada dentro de casa, na mesma região onde ocorreu a chacina. Todos os policiais denunciados aguardam julgamento em liberdade e na ativa, alguns inclusive atuando na região do crime, enquanto o processo aguarda análise de recursos. Na última sexta, mais um recurso foi apresentado à Justiça.

Fernando dos Santos Araújo sobreviveu ao massacre em que o namorado dele morreu. Ele esteve no Programa de Proteção à Vítima (Provita), mas acabou voltando à fazendo Santa Lúcia e foi morto no dia 26 de janeiro deste ano. Antes do assassinato, ele disse que estava recebendo recados dos policiais que atuaram na chacina: "Ainda mais um outro lá que diz que é covarde, que faz mesmo e quando não faz, manda qualquer um fazer por qualquer dez real, foi assim que ele me falou (sic".

Segundo a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), responsável pelo programa, o sobrevivente da chacina fez parte da proteção entre 7 de junho de 2017 a 3 de agosto de 2017, solicitando a sua saída de forma voluntária. Ainda de acordo com a secretaria, as pessoas contempladas devem ser atendidas pela Secretaria de Segurança Pública (Segup) que, dependendo do caso, estabelece medida protetiva necessária.

Após o retorno à fazenda, Fernando vinha sofrendo ameaças. A Polícia Civil não quis detalhar sobre as ameaças, mas disse que "trabalha nas investigações, por meio de diligências e oitivas, para a devida apuração do caso".

Outra sobrevivente da chacina não conseguiu se adaptar ao Provita e decidiu voltar para a fazenda Santa Lúcia há dois anos. A casa dela fica em um lote onde tem plantação de milho, mandioca, de várias frutas, mas depois da morte de Fernando, a testemunha abandonou tudo e foi embora mais uma vez - com medo de ser morta. Ambos eram duas testemunhas-chave. Agora, ela diz que se sente sozinha.

"Fiquei muito apavorada porque ele era uma pessoa que eu amava muito, um amigo, companheiro de batalha, de luta. Espero que a Justiça seja feita, que a gente possa viver em paz. Eu quero viver e quero ter paz, só isso" diz ela.

A jornalista Ana Aranha, da ONG Repórter Brasil, está produzindo um documentário sobre a chacina de Pau D'Arco, que foi um marco da questão agrária do Brasil. Ela conta que o retorno à fazenda representava o retorno ao assentamento e a conquista de sonhos, atrelada à eminente violência que lhe ameaçava.

"Ele era muito guerreiro, enfrentava muito preconceito por ser homossexual num ambiente bastante fechado. Estava muito feliz porque tinha conseguido conquistar um sonho de construir um bar/mercearia dentro da terra dele no assentamento, mas, ao mesmo tempo, era um momento terrível, de muito medo, por conta das ameaças que ele recebia".

O documentário da jornalista tem as últimas imagens de Fernando, gravadas no começo de janeiro. Ele relata que foi procurado três vezes para mudar o depoimento que ele e outras testemunhas deram sobre a chacina.

"A terceira conversa foi lá em casa, eu estava lá vasculhando meu terreno e chegou o rapaz: 'tá sabendo da conversa aí que os caras querem vir falar com você?'. 'Os caras? Quem é os caras?'. "Os policial lá. Tão querendo se reunir pra vir aqui falar com vocês pra ver se dão uma quebra lá no tribunal.' (sic).

A jornalista Ana e Fernando se falaram pela última vez no dia do assassinato. "Ele mandou um áudio dizendo 'olha, Ana, estou indo embora amanhã para Redenção'. Perguntei se estava saindo por causa das ameaças: 'É por isso mesmo', ele disse"."Sabe que eu vivo aqui, ansioso, preocupado, então, melhor eu sair daqui", afirmou Fernando na última mensagem.

Ana Aranha perguntou se ele queria conversar, se ela poderia ajudar em algo, mas Fernando nunca escutou o áudio. "'Você quer conversar? Será que eu posso ajudar de algum modo?' Esse último áudio que eu enviei ele não escutou porque foi assassinado", relata.

'CHEGARAM MATANDO' -  Quatro meses depois da chacina, policiais e sobreviventes participaram da reconstituição do crime. "'Não corra, bandido, senão vai morrer'. Falou isso e papapá, atirando em cima da gente", contou o sobrevivente. Os agentes tinham ido à fazenda para cumprir mandados de busca de 14 trabalhadores rurais. Dez assentados morreram. "Se eles foram lá com busca e apreensão, porque não chegaram lá e buscaram e apreenderam em vez de chegar matando?"

A Fazenda Santa Lúcia foi ocupada pelos trabalhadores em 2015. Os donos tentaram vendê-la para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), instituto responsável pela reforma agrária, mas não houve acordo.

No começo de 2017, os donos conseguiram na Justiça a reintegração de posse e os acampados deixaram a fazenda, mas voltaram em maio. No dia 24 daquele mês, houve a operação policial, iniciada devido a suposto envolvimento dos sem-terra na morte de um vigia da fazenda.

Fernando vivia em um lote de terra, onde tinha um bar. Segundo relatos de vizinhos, na noite do crime, havia três homens na área, que disseram que estariam aproveitando o sinal de internet, quando ouviram um tiro de arma de fogo. As testemunhas encontraram o corpo, com marcas de sangue no rosto.

Um membro da associação de moradores de Pau D'Arco disse que escutou o tiro. "Escutei como se fosse um tiro, só que boi também, na zona rural, ele faz também pum, pum, como se fosse tiro, e aí um cachorro gritou rumo à casa do Fernando". Segundo os moradores, não houve perícia.

"Eu estranhei por ter tirado muito rápido o Fernando, sem fazer perícia, nada, tirou só umas fotos lá mesmo, parece que foi o investigador que tirou umas fotos. Ele já veio com a funerária já e já colocou ele. Foi coisa rápida, assim".

Antonio Mororó, titular da Delegacia de Conflitos Agrários em Redenção disse que estão sendo apuradas outras hipóteses para o crime, além de um possível crime relacionada ao conflito no campo. "Me limito a afirmar que existem outras linhas sob pena de prejudicar a própria investigação", afirmou.

O advogado dos policiais que comandaram a operação de 2017 diz que a Polícia se defendeu de uma agressão dos trabalhadores rurais. "Tudo indica que (a agressão) foi feita com armas, tanto assim que eles apreenderam várias armas", alega Ivanildo Alves, advogado. A tese foi contestada já no início das investigações.

À época, o perito da Polícia Federal, Jesus Antonio Velho, havia dito que "não há elementos objetivos para provar taxativamente que os acampados atiraram". Alves defende também que as recentes ameaças a Fernando não partiram dos seus clientes. "São homens tementes a Deus, são pais de família, são policiais e não criminosos para sair ameaçando as pessoas", afirma.

O advogado Adilson Vitorino defende sete dos policiais. Ele afirma que o processo ainda pode levar anos. "Acredito que daqui uns quatro, seis anos, pela complexidade do processo, menos que isso é impossível, não tem como atropelar a marcha processual, tem que ser cumprido todos os ritos, direito de defesa completa, acusação completa, então tem que ser feita uma varredura pormenorizada em todo esse processo".

A Promotoria de Justiça diz que o Ministério Público do Pará tenta fazer com o processo caminhe, "já que é uma causa de repercussão não só nacional mas também internacional, e que traz como pano de fundo uma situação que é muito cara ao estado do Pará". A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos outros sete policiais envolvidos na chacina.


Autor: Redação AMZ Noticias


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