Sábado, 17 de Abril de 2021

ZONEAMENTO – Era uma vez o Vale do Araguaia




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Zoneamento Socioeconômico Ecológico (ZSSE) esse é o nome do espinho que tentam atravessar na garganta do Vale do Araguaia atingido diretamente 17 municípios, mas com reflexos negativos em toda a região. Em poucas palavras não é possível definir a jogada armada.

A Boamidia detalha o que é de domínio público, com ou sem fundamento legal, e o que se passou nos bastidores para se chegar a esse momento de apreensão para produtores rurais, políticos, empresários e vários outros segmentos. Imaginemos um leitor perguntando ao repórter  sobre o ZSEE

O que pretende o ZSEE? Criar duas unidades de conservação que juntas alcançariam um milhão de hectares, retirados de propriedades produtivas em áreas consideradas úmidas. Mas não é somente isso: engessar para o processo produtivo tecnificado mais de quatro milhões de hectares, sobre os quais seria pecado mortal tanto o cultivo mecanizado quando o simples pensamento sobre essa possibilidade, restando à área o consolo da agricultura familiar de fundo de quintal.

Quem responde pelo ZSEE? O governo do democrata Mauro Mendes, nesse caso representado pela Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag).

O que está em curso na prática? O arcabouço jurídico com fundamentação técnica ou científica já teria ocorrido por meio de equipes do governo estadual. Para o golpe final é preciso que se conclua uma consulta pública virtual iniciada em 18 deste mês e que se encerrará em 16 de fevereiro pelo mesmo método remoto.

Como isso começou? No começo dos anos 2000, pressionado por organismos internacionais e países, o Brasil partiu para ZSEE nos estados e o fez bem rapidamente. Mato Grosso concluiu o seu em 2008 com a devida chancela da Assembleia Legislativa amiga do Palácio Paiaguás, em 2011.

O baronato da soja não se sentiu prejudicado com a forma como foi aprovado o zoneamento, mas o Ministério Público Estadual representou contra o mesmo e essa ação se arrastou até 2016, por conta da crônica lentidão do Judiciário. Em 2016 o governador era Pedro Taques, que pisava no Palácio Paiaguás sonhando com a Presidência da República, não sem antes de reeleger ao governo em 2018, como parte de seu plano.

No ano de 2014 Taques chegou ao poder em parte por sua fama de procurador da República durão, condição essa que o elegeu senador pelo PDT, em 2010, mas, sobretudo pela injeção financeira que sua campanha ganhou do agronegócio.

Eleito, Taques fatiou o poder entre seus apoiadores. Deu a Secretaria de Educação para o PSDB do então deputado federal Nilson Leitão e o à época deputado estadual Guilherme Maluf. Leitão e Maluf escolheram Permínio Pinto para secretário. Em Mato Grosso até os postes sabem que Permínio foi preso por corrupção, que assumiu sua mea culpa, mas que Leitão e Maluf foram poupados. Taques, Fávaro e seus secretários em 2015

Educação para os tucanos e Meio Ambiente para o agronegócio. A promotora de Justiça Ana Luiza Ávila Peterlini assumiu a Secretaria de Meio Ambiente (Sema). Extremamente correta, Peterlini jamais compactuaria com jogadas sujas, mas seu posicionamento radical em defesa do meio ambiente facilitou para que o então vice-governador Carlos Fávaro (PP) azeitasse uma equipe para redesenhar o ZSSE suspenso judicialmente.

Fávaro na verdade é quem comandava a Sema, na condição de representante do agronegócio. Peterlini não pôde permanecer na função porque o MPE entende que promotor não pode servir ao Executivo. Interinamente Fávaro a sucedeu em abril de 2016 acumulando a vice-governadoria com a secretaria até dezembro de 2017, quando foi substituído por André Baby. Dando as cartas na Sema Fávaro montou o ZSEE que ora deixa o Araguaia com a pulga atrás da orelha.

Por que Fávaro fez isso? Em 2014 indicado candidato a vice-governador por Eraí Maggi Scheffer, que recusou tal candidatura, Fávaro chegou ao governo disposto a atender seu padrinho. Eraí, seu primo Blairo Maggi (à época senador) e outros barões da soja alinhavavam com inteligência a sobrevivência de sua produção nos moldes em que a mesma é cultivada em Mato Grosso. Observem quanto o ZSEE do Araguaia caiu como luva para eles.

Na onda do zoneamento o governo de Mato Grosso editou em 2006 o programa MT+20, elaborado por ditas cabeças pensantes – muito bem remuneradas – para mostrar como seria o território mato-grossense em 2026. No mesmo ano, a Abiove (representa as indústrias de óleo de soja) e a ANEC (que reúne os exportadores de cereais) juntamente com barões da soja e entidades regionais assinaram a famosa Moratória da Soja, pela qual as trades não comprariam leguminosa cultivada em áreas de novas aberturas na Amazônia Mato-grossense.

Com o cenário criado pelo MT+20 e a moratória o agro mato-grossense acalmou ambientalistas europeus, japoneses e americanos. A porteira estava aberta, mas faltava o golpe de mestre: lançar uma região na jaula dos leões. Por que não o Araguaia ou Vale dos Esquecidos? Seria preciso costurar os termos para que o ZSEE jogasse aquela região na lata de lixo ou no vaso da privada. A ação do MPE retardou esse maquiavélico plano.

Quando o ZSEE se viu livre do laço judicial Fávaro estava no poder; era vice-governador. Ninguém melhor do que ele pra montar a sonhada jogada. Assim se fez, com Baby tendo papel importante. Ainda sobre Baby, o mesmo foi preso pela Polícia Civil, numa operação sigilosa para investigar emissão fraudulenta de Cadastro Ambiental Rural (CAR) pela Sema.

Onde entra o sonho da Presidência? Taques não tem sentimento. É movido por objetivos. Queria ser presidente e precisava se mostrar ao Brasil. Nada melhor do que o ZSEE do emblemático Araguaia de Dom Pedro Casaldáliga. Com ele o país veria um governador decidido, enérgico, enxotando produtores vilões que teimavam em poluir o Araguaia e o rio das Mortes, em derrubar suas matas ciliares. Vivo que só ele, Taques trocou o PDT pelo PSDB, pra puxar o coro de oposição ao governo petista de Lula e Dilma. O Araguaia que se dane, afinal o eleitorado de Cocalinho ou de Nova Nazaré cabe numa Kombi – deve ter pensado assim.

Mas, agora não é mais Taques. É Mauro Mendes? Ninguém sabe onde o governo Taques terminou e o de Mauro Mendes começou. Figuras importantes são onipresentes no Palácio Paiaguás. Ali estiveram com Taques e ali permanecem com seu sucessor, que também deu as cartas no poder na era Taques.

Mauro Mendes conseguirá aprovar o ZSEE?  Botelho foi Taques e agora é Mauro Mendes. Claro que sim. O zoneamento passa pela Assembleia onde a base parlamentar de Mauro Mendes é praticamente a mesma que serviu a Taques, começando pelo presidente Eduardo Botelho (DEM) e seguindo com Max Russi (PSB), Sebastião Rezende (PSC), Wilson Santos (PSDB), Dilmar Dal’Bosco (DEM), Nininho (PSD) etc. A esses deputados se juntarão outros, que saberão ouvir entre quatro paredes as mensagens do agro. Isso sem falar na ascendência que Blairo tem sobre alguns.

Depois de tantas explicações, não entendi onde entra o interesse do agronegócio em jogar o Araguaia na lata de lixo? É simples. A área que estaria sobre a abrangência do citado ZSEE não tem propriedades de Blairo Maggi, Eraí, Otaviano Pivetta (vice-governador), Fernando Gorgen (prefeito de Querência) nem de diretores da Federação da Agricultura e Pecuária (Famato) e muito menos da cúpula da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja). Por coincidência o delírio presidencial de Taques converge com os interesses do baronato da soja e o Araguaia que pague o pato.

Onde essas áreas se localizam? Cocalinho, Nova Nazaré, Água Boa, Novo Santo Antônio, São Félix do Araguaia, Luciara, Canarana, Porto Alegre do Norte, Santa Terezinha, Nova Xavantina, Confresa, Vila Rica, Ribeirão Cascalheira, Serra Nova Dourada, Araguaiana, Bom Jesus do Araguaia e Canabrava do Norte.

A movimentação de fazendeiros lançada em Cocalinho contra os métodos propostos pelo ZSEE terá força? A recém-criada Associação dos Fazendeiros do Vale dos Rios Araguaia, Cristalino e das Mortes (Afava) tem as melhores intenções, mas é preciso observá-la com mais abrangência:

1 – No Brasil se criou a imagem da satanização dos produtores rurais.

2 – Nenhum movimento classista deve tentar se sobrepor à classe política nos países democráticos.

O ideal seria a Afava se juntar aos sindicatos da base da Famato e a outras entidades representativas formando um bloco liderado pela classe política com prefeitos, vereadores, vice-prefeitos e o deputado estadual Dr. Eugênio Paiva (PSB), que é o único representante daquela região na Assembleia Legislativa.

Toda força será necessária. Não se pode dar passo em falso. Avalio que o nome do Dr. Eugênio se despontará naturalmente à frente do movimento. Entendo que a participação da Imprensa do Vale do Araguaia seja estratégica e imprescindível, mas será preciso ocupar espaço nas redes sociais e em Cuiabá, que será o grande dessa questão.

Em resumo, o que esperar de Mauro Mendes e Fávaro?  Mauro Mendes é Blairo Maggi. Mauro Mendes faz o jogo de Blairo Maggi, que sempre foi seu guru e padrinho. Fávaro é senador pelo PSD e sonha acordado com mais poder – se agradar seus amigos do agro os terá em sua sonhada candidatura ao governo em 2022.

Uma revolta do Araguaia contra Fávaro não o invabilizaria politicamente? Suas digitais no ZSEE serão escondidas pelo zelo da Imprensa Amiga. Os poucos no Araguaia que lerem esse texto serão bombardeados com contrainformações de Fávaro. O avassalador poder do poder sufocará essa verdade.   

Qual nome se pode dar a isso? Se concretizado, acho que nenhum título se encaixa melhor do que Era uma vez o Araguaia.

EDUARDO GOMES DE ANDRADE é um dos mais respeitados jornalistas de Mato Grosso, com mais de 4 décadas de atuação na Boa Midia 


Autor: Eduardo Gomes de Andrade


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