Quinta-Feira, 06 de Maio de 2021

Mãe de Isabele acredita que amiga matou a filha por motivo fútil: ciúme ou inveja




COMPARTILHE

Quase sete meses após ter a filha assassinada pela amiga, o maior desejo da empresária Patrícia Ramos é esquecer a cena de Isabele Ramos estirada no chão com um tiro no rosto. O crime ocorreu na noite do dia 12 de julho de 2020, no Condomínio Alphaville, em Cuiabá.  

Com acompanhamento psicológico e uso de medicamento diário, ela tenta sobreviver se mantendo ativa. Voltou a trabalhar e diz estar aberta a conhecer novas pessoas. Nesta semana, a empresária recebeu a equipe do MidiaNews no Studio Velocity, do qual é proprietária, e comentou sobre o crime. Ela afirmou que sua querida Isabele teve a vida ceifada por um motivo fútil.  

“A única coisa que realmente não me resta dúvida, depois de tudo que eu vi, de tudo que eu presenciei, é que ela matou minha filha por um motivo fútil. Ou foi ciúme, ou inveja, algo que ela não iria conseguir ser igual à Bele, não sei... Porque realmente te digo que elas eram muito próximas”, disse.

Na entrevista, Patrícia ainda comentou sobre a condenação da adolescente que tirou a vida da sua filha e declarou que espera que a Justiça também condene e prenda os pais da menor. A jovem foi senteciada a três anos de internação por ato infracional análogo ao crime de homicídio doloso, quando há intenção de matar. 

Para a mãe, a condenação de três anos “foi pouco”. Ela defendeu a redução da maioridade penal e disse que a jovem tinha plena consciência do que fez e, em momento algum, se mostrou arrependida. Confira a entrevista abaixo:  

MidiaNews - Passados quase sete meses da tragédia que vitimou sua filha Isabele, como a senhora está? O que a senhora tem feito para amenizar a dor da perda dela?

Patrícia Ramos - É sempre bem difícil falar sobre esse assunto para mim. Eu tinha só a Isabele e o Pedro. Agora tenho só o Pedro e a gente está tentando levar a vida da melhor forma possível. Não tem como esquecer aquele dia. A coisa que eu mais desejo é não ter que me lembrar da minha filha... Ter essas lembranças daquele dia. Dela estirada no chão, baleada no rosto. Mas é uma coisa que vou carregar para minha vida e é o que a gente está fazendo para viver, para sobreviver diante de uma tragédia dessa, que já é a segunda na nossa família.

Meu marido, alguns anos atrás, sofreu um acidente de moto, se chocou com uma vaca e morreu. Primeiro foi a perda dele. Foi muito difícil para as crianças, porque ele era muito presente, muito amigo. E agora a Bele.

Voltei a trabalhar em novembro, tenho procurado me manter ativa, me manter aberta a conhecer pessoas, porque fiquei muito tempo sem trabalhar. Quando você volta, tudo é novidade. Tudo é diferente. Ingressar no mercado de trabalho é um desafio grande quando você já tem uma certa idade e isso está sendo muito bom para mim.

Mas não vou mentir: a gente tem acompanhamento de psiquiatra, faz uso regular de medicação, tem psicólogo. Isso eu e o Pedro. E é basicamente isso. É muito difícil esquecer. Primeiro porque ela era muito querida. E depois, nenhum pai deseja que seu filho seja morto em uma circunstância dessa, quer dizer, nenhum pai espera que isso aconteça antes da gente, muito mais sob circunstâncias como aquelas, que desde o início foram muito nebulosas, muito mal explicadas. Foi tudo tentando parecer que não foi o que realmente aconteceu. Então ficaram muitas dúvidas.

MidiaNews - A senhora consegue dormir normalmente ou tem dificuldades?

Patrícia Ramos - Tenho [dificuldades]. Não uso mais medicamentos para dormir, mas é difícil. É difícil pegar no sono, dormir a noite toda. Eu penso nela todos os dias, todos os dias...

MidiaNews – Qual tipo de tratamento psicológico a senhora está fazendo? Quais remédios toma?

Patrícia Ramos - Eu não tomo mais medicação para dormir, mas faço uso de antidepressivo, medicamento para ânimo. O Pedro também, porque teve uma fase em que ele ficou bem deprimido e precisei recorrer ao psiquiatra. A gente tem acompanhamento psicológico toda semana. Uma vez na semana vamos no psicólogo. Entender, a gente não entende, mas para poder aceitar e continuar.

MidiaNews - A senhora decidiu continuar morando na mesma residência, no condomínio onde aconteceu a morte. Pensou em se mudar para outro local?

Patrícia Ramos - Pensei. Quando a gente decidiu reformar a casa - eu falo a gente porque tudo que faço eu peço aval dos meus filhos - foi logo depois que meu marido faleceu. A gente queria um recomeço, porque íamos continuar no mesmo local. A Isabele queria um quartinho diferente. Eles já estavam adolescentes, então eu fiz de tudo para gente poder voltar para casa de novo, mas com uma pintura diferente, com novos ares. E voltar para casa agora foi muito difícil, estar nela tem sido muito difícil, um desafio porque agora são lembranças da Bele, do meu marido, e eu tenho vontade de ir embora de lá.

 

MidiaNews - A senhora mantém o quarto da Isabele do mesmo jeito?

Patrícia Ramos - Quando tudo aconteceu a reforma estava quase para acabar. A Isabele havia escolhido o papel, os móveis... Então achei por bem terminar o quarto. Está todo prontinho, só falta ela... Só falta ela, está tudo do jeito que ela queria, desde a lâmpada, do pendente, das coisas que ela queria mudar. Eu fiz tudo do jeito que ela sonhou. Seria o presente dela de 15 anos.

MidiaNews -  O que a senhora acha que motivou o crime?

Patrícia Ramos -  Desde o primeiro dia - aquele momento que eu vivi, que eu entrei ali -, primeiro eles haviam falado que era um acidente. Até o dia seguinte, as coisas se desenrolarem e a gente descobrir que não. O case não tinha caído, a arma não tinha disparado de dentro do case, não era nada disso... A [menor] tinha atirado.

A única coisa que eu pensei, não formei essa opinião de um dia para noite, eu e meu advogado assistimos às imagens várias vezes, vi o depoimento dela várias vezes. Primeiro porque era uma garota que eu conhecia, ela era de dentro da minha casa. Eu a conhecia, os irmãos, a família. Eu não tinha a intimidade que a minha filha tinha com eles, mas eu conhecia. A única coisa que realmente não me resta dúvida depois de tudo que eu vi, de tudo que eu presenciei, é que ela matou minha filha por um motivo fútil. Ou foi ciúme, ou inveja, algo que ela não iria conseguir ser igual a Bele, não sei... Porque realmente te digo que elas eram muito próximas.

Eu já disse isso, mas sempre gosto de falar porque a Isabele me dizia que o relacionamento da [menor] com o namorado era conturbado, tinha muito ciúmes. Ela se privou dos amigos, se afastou de todo mundo. Eles viviam um relacionamento sério, de casal. Ele estava todos os dias na casa dela. Então a Isabele se afastou dela por um tempo e a amizade com a [irmã da menor que atirou] se intensificou mais, e acho que foi isso. Pela velocidade das coisas, ela fechou a porta, esperou o namorado sair, ela correu. Não teve tempo, ela não pensou. Ela subiu e atirou na minha filha.

Então foi algo superficial. Acho que foi isso mesmo, não tem muita explicação. Ela tinha a faca e o queijo na mão, sabia atirar, tinha uma arma à disposição... Se fosse uma briga normal de adolescente, se o ambiente não tivesse essas armas dispostas, elas iam se desentender, minha filha ia voltar para casa, elas ficariam brigadas, mas não. Ela teve uma motivação e tinha um instrumento que sabia usar. E foi calculista. Eu disse que a sentença da juíza [Crisiane Padin, que determinou a internação da menor] foi bem assertiva, descreveu bem os adjetivos para isso tudo. Ela agiu com frieza, não teve amor, foi implacável. É isso.

MidiaNews - A condenação recente da menor que atirou (internação de três anos) trouxe algum alívio para a senhora?

Patrícia Ramos - Não. Acho que [a pena de] três anos foi pouco, porque minha filha não está aqui hoje. Ela tinha tudo para ser feliz, para entrar na faculdade, casar, ter filhos. Era uma menina bonita, tinha muitos amigos. Hoje ela estaria aqui comigo, porque o sonho dela era estar aqui. Fiz isso aqui [a empresa de bike] pensando nela. Ela era apaixonada por bike. Então me vi em um ponto que, quando as obras terminaram, e percebi que realmente ia acontecer, fiquei triste, pensei em desistir de tudo por ela, porque acho que não ia haver mais motivo para eu entrar e tocar a empresa se ela não estivesse comigo. A [menor] frustrou todas as possibilidades da minha filha ser alguém nessa vida.

MidiaNews - A defesa tem recorrido a diversas instâncias para obter a liberdade da acusada.  A senhora tem receio de que os advogados consigam tirá-la do Pomeri? 

Patrícia Ramos -  Receio não tenho. Ela tem que estar lá mesmo, precisa de uma ajuda psiquiátrica e longe da família, longe do seio da família. Realmente, ela precisa ser estudada. Fico triste porque ela é uma garota também, que creio que parte da vida ela destruiu depois que assassinou a minha filha. É triste saber que uma garota na idade dela, que tinha tudo para dar certo, hoje está presa.

A liberdade é uma possibilidade que pode realmente acontecer, porque os pais dela têm condição financeira, acho que eles vão recorrer a todo custo. Mas receio não, não tenho receio. Acredito muito em Deus. Se ela não pagar é porque acho que a vida dela esta fadada a outro tipo de juízo. Eu só quero que eles tenham consciência que não vou desistir nunca. Travei uma batalha contra eles, porque a [menor] não atirou sozinha contra minha filha, o crime começou muito antes disso.

MidiaNews - A senhora defende a redução da maioridade penal?

Patrícia Ramos -  Seria muito assertiva no momento, porque uma garota na idade dela tem consciência perfeitamente do que está fazendo. O advogado alegou que ela era uma criança. Ela não era uma criança. Ela sabia o que estava fazendo. Ela era campeã de tiro, os pais agiram com total negligência naquele dia. E acho que seria muito bom se isso tivesse acontecido a tempo, porque uma jovem nessa idade tem plena consciência de seus próprios atos e deve pagar por isso.

MidiaNews - O que a senhora espera em relação ao caso dos pais dela?

Patrícia Ramos -  O Ministério Público fez a denúncia e agora isso vai virar um processo. Eu espero que eles sejam punidos da maneira que ela foi e que seja rápido também. Isso seria muito importante para mim e para o Pedro, mas sei que se tratando da Justiça do Brasil, o negócio não vai andar muito rápido.

"Uma garota na idade dela tem consciência perfeitamente do que está fazendo"

Espero que eles sejam presos, porque tenho plena consciência de que eles fizeram de tudo para que... Eles criaram um ambiente para que tudo acontecesse naquele dia. Eles poderiam ter evitado, eles poderiam guardar as armas em um local seguro. Sabiam que naquele dia havia visitas, vizinhos, outros membros que não eram dali. Eles vacilaram.

MidiaNews - Após a sentença da adolescente, a senhora fez um texto em que elogiou a juíza Cristiane Padin, dizendo que ela não se deixou levar pela “farsa montada pela família”. 

Patrícia Ramos -  Eles tentaram enganar a Justiça. Eu fiz parte das audiências como assistente de acusação. A princípio a juíza negou, eu recorri e então eles usaram de todos os artifícios para parecer que não foi aquilo. Eles contrataram uma perícia particular, profissionais de fora. E fico grata a Deus porque a doutora Cristiane não se deixou influenciar por absolutamente nada. E acho que muito também porque em momento algum a [menor] colaborou com nada, com absolutamente nada.

Porque uma pessoa comum, se faz algo que não foi a intenção, não é aquilo que ela queria, ela vai tentar de todas as maneiras defender o pensamento dela. Sinto até que ela achou que seria muito fácil porque o pai estava comprando peritos para fazer outra perícia que não a da Politec. Acho que ela tinha certeza que ia se safar, igual como na primeira vez que pediram a preventiva até aguardar a sentença e eles entraram com habeas corpus e logo ela foi solta. Mas agora é diferente. Ela foi enquadrada no crime análogo a homicídio doloso. Eles vão usar mesmo de todos os artifícios, mas acho que vai ser mais difícil.

MidiaNews – Ela não demostrou arrependimento em momento algum?

Patrícia Ramos - Nossa, não. Em nenhum momento, nem ela e nem a família. É muito triste isso porque é a vida da minha filha, o serzinho que eu estimava tanto, que era tanto para mim, porque quando a gente é mãe os filhos são nossos tesouros... E ela era meu tesouro. Em momento nenhum eu vi arrependimento ou emoção. Em momento nenhum vi emoção da parte dela no depoimento que ela deu dois dias depois para a Polícia. Não tinha nada, só frieza.

MidiaNews – Os pais delas procuraram a senhora?

Patrícia Ramos - Não, nem espero que eles me procurem porque tudo se encaixa dentro disso, nessa farsa toda. Se fosse um acidente, o que prova que não foi, eles tentariam se justificar, ou ela, mas não. Nem no dia do crime.

MidiaNews - Como a senhora vê a participação do namorado da atiradora?

Patrícia Ramos - Espero que ele seja punido. É justo, porque ele também praticou um crime, e quem que tem que responder por ele são os pais, porque afinal de contas a arma era do pai dele.

MidiaNews - Até o ano passado, o celular da Isabele continuava bloqueado, impedindo uma perícia. Como está isso?

Patrícia Ramos – O celular ficou com a Polícia o tempo todo do inquérito. Eles tentaram desbloquear, mas não conseguiram e agora vai para um processo penal.

Ela tinha o telefone celular e a única condição para ela ter o celular era que eu tivesse a senha. E naquele dia o telefone me foi entregue pela [menor]. Estava no bolso da bermuda dela. E quando fui acessar a senha, não era mais a mesma e eu nunca consegui desbloquear o telefone por causa disso. Não sei se a [menor] tinha a senha, alterou, apagou alguma coisa. Mas de fato o Ministério Público está investigando. Os peritos identificaram que naquela noite entraram na rede social da Isabele e apagaram algumas coisas que eram importantes. Então isso tudo está sendo investigado.

Eu sei que uma amiga da Isabele tinha o reconhecimento facial e eu pedi pra que eles não deixassem descarregar, porque apesar de ligar de volta, ele não deixa mais desbloquear com o reconhecimento facial, só com senha. E eles deixaram descarregar o telefone naquela noite. Apesar da gente levar para a amiguinha que tinha o reconhecimento, a gente não conseguiu mais abrir porque eles deixaram recarregar o telefone.

MidiaNews – A senhora acha que ela planejou tudo?

Patrícia Ramos - Não sei, me parece que sim. Difícil...

MidiaNews - Qual a mensagem a senhora gostaria de mandar para os pais que possuem armas em casa e para os menores e adolescentes?

Patrícia Ramos - Espero que nenhuma família precise passar pelo que a gente está passando hoje, e que isso sirva de exemplo para os jovens.

Eu penso que essas pessoas que têm porte de arma e mantêm armas em casa precisam ter um cuidado redobrado. [A arma] tem que ficar trancada a sete chaves. E a pessoa tem que ter total responsabilidade sobre isso, responsabilidade com a vida.

É triste, é minha posição, minha opinião como mãe. Eu nunca tive arma, não sei manusear, mas sempre tive uma posição completamente diferente da [menor] e dos pais dela. Os meus filhos são obrigados a fazer esportes, a brincar na rua.

Naquele dia minha filha foi fazer uma torta de limão, meus filhos não têm conhecimento do que é uma arma, nem têm necessidade de ter, nem de saber atirar. Ele têm que ter responsabilidade em casa, com a escola, e eu acho que criança e adolescente têm que estar envolvidos com isso. Sou totalmente contra. Criança não tem que estar com arma na mão.


Autor: AMZ Noticias com Midia News


Comentários
O Norte Araguaia não se responsabiliza pelos comentários aqui postados. A equipe reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros.

Nome:
E-mail:
Mensagem:
 



Copyright - Norte Araguaia e um meio de comunicacao de propriedade da AMZ Ltda.
Para reproduzir as materias e necessario apenas dar credito a Central AMZ de Noticias